Comportamento durante REM: transtornos do sono que precisam de investigação
· Por Dr. João Pedro CastroPsiquiatra · Psicogeriatra · CRM-MG 83920 · RQE 62148 / 66521
O sono se compõe de fases distintas com funções biológicas distintas. A fase REM (Rapid Eye Movement) concentra a maior parte dos sonhos vívidos, a consolidação da memória emocional e o processamento de experiências do dia. Transtornos que afetam essa fase têm manifestações bem específicas e costumam ser perturbadores para quem dorme e para quem dorme do lado.
O Transtorno Comportamental do Sono REM (RBD, na sigla em inglês) se caracteriza pela perda da atonia muscular típica do REM, aquela paralisia que normalmente impede a pessoa de atuar os sonhos. Resultado: o paciente literalmente representa o que sonha, muitas vezes com conteúdo agressivo ou defensivo. Relatam acordar no chão, com o braço machucado, depois de "lutar" com algum inimigo onírico.
RBD tem peso neurológico que vai além do incômodo. É fator de risco estabelecido para doenças neurodegenerativas, especialmente Parkinson e síndromes correlatas. Pacientes diagnosticados com RBD têm 50 a 80% de risco de desenvolver doença parkinsoniana nos 10 a 15 anos seguintes. Por isso, identificar e acompanhar esse quadro tem implicação para muito além da noite.
Pesadelo recorrente acontece em REM, mas sem comportamento motor anormal. O paciente tem sonhos perturbadores vívidos, frequentemente com tema repetido, e acorda angustiado. Pode estar relacionado a trauma (TEPT), ansiedade, medicação (alguns antidepressivos e betabloqueadores aumentam pesadelo) ou sono mal estruturado.
Terror noturno funciona diferente. Ocorre em sono profundo não-REM, na transição entre fases, com despertar incompleto. A pessoa grita, taquicárdica, pode se levantar e ficar agressiva se tocada, mas em geral não percebe que acordou e no dia seguinte não tem memória clara do episódio. Mais comum em crianças, pode persistir ou aparecer no adulto sob estresse intenso.
Existe ainda a paralisia do sono. A pessoa acorda durante a transição entre sono e vigília mantendo a paralisia REM. Está consciente, percebe o ambiente, mas não consegue se mover. Vem com frequência acompanhada de alucinação hipnagógica (na fase de adormecer) ou hipnopômpica (na fase de despertar), o que produz uma sensação de presença ou medo intenso. Assustador, e inofensivo.
O diagnóstico desses quadros costuma exigir polissonografia, o registro eletrônico do sono em laboratório. A videopolissonografia (vídeo combinado com polissonografia) é particularmente útil em RBD e terrores noturnos, porque mostra o comportamento motor anormal de forma direta.
Tratamento varia. RBD responde bem a clonazepam em dose baixa. Pesadelo se beneficia de medicações específicas (como prazosina em TEPT) e de terapia de imagem repetida. Terror noturno melhora com sono regular e redução de estresse, e a medicação fica reservada para casos refratários.
Se você tem relato de comportamento agressivo durante o sono, pesadelo perturbador recorrente ou sensação de paralisia ao acordar, vale uma avaliação especializada em sono. Identificar qual transtorno está em curso permite tratamento dirigido, e em alguns casos, como o RBD, abre uma janela importante de monitoramento neurológico de longo prazo.
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