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    Trauma8 min de leitura

    Estresse pós-traumático: como o cérebro fica preso ao que já passou

    · Por Dr. João Pedro CastroPsiquiatra · Psicogeriatra · CRM-MG 83920 · RQE 62148 / 66521

    Boa parte do que se chama no senso comum de "trauma" não chega a configurar o transtorno de estresse pós-traumático. Eventos difíceis (perdas, rupturas, sustos prolongados) deixam marca afetiva e podem produzir luto, ansiedade, episódios depressivos, mas o TEPT no sentido clínico tem uma assinatura própria. A pessoa não fica triste com o que aconteceu. Ela fica presa ao que aconteceu, no sentido neurobiológico literal: o cérebro segue reagindo ao evento como se ele estivesse em curso.

    A condição se desenvolve em uma fração das pessoas expostas a evento potencialmente traumático. Estimativas populacionais apontam que entre 50% e 90% dos adultos passam por algum evento desse tipo ao longo da vida, mas só 5% a 10% desenvolvem TEPT. A diferença entre quem adoece e quem não adoece envolve fatores que pouco dependem de força de caráter: vulnerabilidade genética, histórico de traumas anteriores (especialmente na infância), gravidade e duração do evento, qualidade da rede de apoio nas semanas seguintes, e presença de outros transtornos psiquiátricos ativos no momento da exposição.

    A clínica do quadro

    O TEPT se reconhece pela combinação de quatro tipos de fenômeno que se sustentam mutuamente. O primeiro é a reexperiência involuntária. A pessoa não escolhe lembrar; a memória se impõe. Pode aparecer como flashback completo (o paciente sente, por instantes, que está de volta ao evento), como pesadelo recorrente com conteúdo trágico, ou como reatividade física intensa diante de estímulos que remetem ao trauma (um cheiro, um som, uma luz, uma frase). A reexperiência tem a qualidade de presente: o corpo responde como se a ameaça fosse atual, com taquicardia, sudorese, tensão muscular, mesmo quando a razão sabe que aquilo passou.

    Em paralelo, a pessoa começa a evitar tudo o que lembra. A evitação aparece de forma ativa (não passar pela rua onde aconteceu, não ir ao consultório onde trabalhava, não dirigir mais) e de forma sutil (mudar de assunto quando alguém pergunta, não ver mais os amigos que estavam no evento, ocupar o tempo com tarefas para não ter espaço de pensar). A evitação reduz a ansiedade no curto prazo, ao custo de reorganizar a vida em torno daquilo que não se quer encontrar. Com o tempo, o universo do paciente encolhe.

    O terceiro grupo de fenômenos envolve alterações persistentes de cognição e humor. Crenças sobre si mesmo, sobre os outros e sobre o mundo se reorganizam em chaves negativas: "a culpa foi minha", "não dá para confiar em ninguém", "o mundo é perigoso". Surgem sentimentos de culpa desproporcional, vergonha, distanciamento dos afetos antes acessíveis, perda de interesse em atividades que faziam sentido. Em alguns pacientes, há entorpecimento ("não sinto nada") em vez de tristeza, o que dificulta o reconhecimento do quadro tanto pelo próprio paciente quanto pelos próximos.

    Por fim, há a hiperativação autonômica. O corpo permanece em alerta. Sobressaltos exagerados, hipervigilância (varrer o ambiente em busca de ameaça), insônia de início e manutenção, irritabilidade explosiva, dificuldade de concentração. Essa última sobreposição com sintomas de TDAH e depressão atrasa o diagnóstico em uma parte relevante dos pacientes, que recebem tratamento para queixa secundária enquanto a condição de base passa despercebida.

    O que acontece no cérebro

    Os achados de neuroimagem em pacientes com TEPT são consistentes. A amígdala, estrutura responsável pela detecção de ameaça, mostra-se hiperativa. O córtex pré-frontal medial, que normalmente regula essa resposta colocando-a em contexto, mostra-se hipoativo. O hipocampo, responsável por marcar memórias com a etiqueta de tempo ("isso já passou", "isso é antigo"), apresenta volume reduzido e funcionamento alterado. O resultado é um sistema em que a memória traumática não recebe a marcação temporal adequada, e por isso o cérebro segue tratando o evento como atual.

    Essa formulação tem implicação clínica direta. O tratamento do TEPT funciona quando consegue, no plano comportamental e farmacológico, restabelecer a capacidade do hipocampo e do córtex pré-frontal de contextualizar a memória. Não se trata de esquecer o que aconteceu. Trata-se de poder lembrar sem reviver.

    Diagnóstico diferencial

    O TEPT divide território com outros quadros e frequentemente os apresenta em comorbidade. Depressão maior, transtorno de ansiedade generalizada, transtorno do pânico e abuso de substâncias coexistem em grande parte dos pacientes. O uso problemático de álcool e cannabis funciona, em muitos casos, como automedicação para os sintomas de hiperativação e insônia, e mascara o quadro de base.

    Existe ainda o TEPT complexo (CPTSD), reconhecido formalmente pela CID-11 em 2018. Aplica-se a pacientes com história de exposição prolongada e repetida a trauma, geralmente na infância ou em contextos de cárcere, violência doméstica continuada ou guerra. Acrescenta aos sintomas clássicos do TEPT três alterações persistentes: desregulação afetiva, autoimagem profundamente negativa e dificuldade marcada nos relacionamentos. O perfil costuma se confundir com transtorno de personalidade borderline, e a leitura adequada da história precoce é o que separa os dois diagnósticos.

    Tratamento

    A primeira linha de tratamento é psicoterapêutica, com técnicas focadas em trauma. As abordagens com maior evidência são a terapia de processamento cognitivo (CPT), a terapia de exposição prolongada e o EMDR (dessensibilização e reprocessamento por movimentos oculares). As três compartilham um princípio comum: permitir que a memória traumática seja revisitada em ambiente seguro, com ritmo controlado, até que perca a qualidade de presente e passe a ser acessada como passado.

    A medicação tem papel adjuvante e bem definido. ISRS, sobretudo sertralina e paroxetina, têm aprovação formal para TEPT e ajudam nos sintomas de hiperativação, intrusão e humor. A prazosina é usada especificamente para pesadelos relacionados ao trauma, com bons resultados. Antipsicóticos atípicos em dose baixa entram em casos com sintomas dissociativos ou agitação importante. Benzodiazepínicos são, em geral, contraindicados: além do risco de dependência, há evidência de que interferem no processamento natural da memória traumática e podem perpetuar o quadro.

    Tratamento bem indicado e bem conduzido produz melhora significativa na maioria dos pacientes, e remissão completa em uma fração relevante. Quanto antes começa, melhor é o desfecho.

    Quando vale procurar avaliação

    Quando você atravessou um evento difícil há mais de um mês e percebe que o quadro não cede, que a vida começou a se reorganizar em torno do que se quer evitar, que o sono não volta ao que era, que o corpo segue em alerta sem motivo presente, vale uma avaliação psiquiátrica. O diagnóstico cuidadoso identifica se o caso é TEPT, se é luto, se é outro quadro com apresentação parecida, e o tratamento, quando indicado, costuma destravar em alguns meses o que poderia ficar travado por anos.

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