O que é psicogeriatria e por que ela importa depois dos 60
· Por Dr. João Pedro CastroPsiquiatra · Psicogeriatra · CRM-MG 83920 · RQE 62148 / 66521
Psicogeriatria, também chamada de psiquiatria geriátrica, é a especialidade que cuida da saúde mental depois dos 60 anos. Vai além de aplicar psiquiatria comum a paciente mais velho. O cérebro envelhecido muda em estrutura, química e ritmo, e cada uma dessas mudanças pesa na hora de diagnosticar e prescrever.
Com a idade vêm alterações que importam clinicamente. Concentrações distintas de neurotransmissores. Metabolização hepática mais lenta. Fluxo renal reduzido. Maior sensibilidade a anticolinérgicos. A sertralina segura para um paciente de 35 anos pode causar confusão, queda ou arritmia em alguém de 75. Dose de início, velocidade de titulação, combinações que fazem sentido, tudo precisa ser repensado para esse cérebro.
Depressão no idoso engana até clínico atento. As queixas somáticas dominam: dor lombar, cansaço, problema digestivo. O paciente passa por três especialidades antes que alguém cogite psiquiatria. Existe ainda uma forma específica chamada pseudodemência depressiva, em que o quadro depressivo mimetiza demência. O paciente esquece, fica confuso, parece que está perdendo a cabeça. Trata-se a depressão e a "demência" desaparece.
Outra área central da psicogeriatria é o manejo dos sintomas comportamentais e psicológicos das demências, conhecidos pela sigla SCPD. Agitação, agressividade, delírios, alucinações, alteração do ciclo sono-vigília. São os sintomas que mais exaurem a família e que mais frequentemente levam à institucionalização. Tratá-los exige farmacologia delicada: antipsicótico em idoso aumenta risco cardiovascular e mortalidade, e cada decisão é uma análise de risco-benefício específica.
A avaliação psicogeriátrica também faz rastreio cognitivo. Identificar precocemente sinais de declínio que possam apontar para Alzheimer, demência vascular, corpos de Lewy ou frontotemporal. Detectar cedo abre janelas: intervenções que retardam progressão, planejamento financeiro e familiar, organização de cuidados enquanto o paciente ainda participa das decisões.
O trabalho é multidisciplinar por natureza. Conversa constante com geriatra, neurologista, fisioterapeuta, fonoaudiólogo, cuidador. A família entra como parte do tratamento. Recebe orientação sobre como lidar, o que esperar, quando ligar para o consultório. Em muitas consultas, dedico parte do tempo à conversa com quem cuida do paciente, porque essa rede sustenta tudo o que vem depois.
Se um familiar idoso seu mudou de comportamento, humor ou cognição nos últimos meses, vale uma avaliação. Quanto mais cedo, melhor. As janelas terapêuticas em psicogeriatria fecham rápido.
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