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    Psicofarmacologia8 min de leitura

    Quetiapina: o antipsicótico que virou calmante universal no Brasil

    · Por Dr. João Pedro CastroPsiquiatra · Psicogeriatra · CRM-MG 83920 · RQE 62148 / 66521

    A quetiapina ocupa hoje, na prescrição brasileira, dois lugares que mal conversam entre si. No primeiro, ela é o antipsicótico atípico que cumpre função clínica robusta em esquizofrenia, fase maníaca do transtorno bipolar e depressão bipolar como adjuvante. No segundo, virou em larga escala um indutor de sono de dose baixa, prescrito por neurologistas, geriatras, clínicos gerais e até cardiologistas para idosos com insônia, agitação noturna e queixas vagas de "nervoso". A leitura adulta da quetiapina precisa fazer essa separação antes de qualquer outra coisa.

    Como age e em que dose age para o quê

    A quetiapina é antipsicótico de segunda geração com perfil de receptor amplo: antagonista D2, antagonista 5-HT2A, antagonista alfa-1, antagonista H1, e em dose mais alta, inibidor de recaptação de noradrenalina por meio do metabólito ativo norquetiapina. O detalhe importante é que a curva de ocupação dos receptores varia bastante com a dose, e isso explica boa parte do que se vê na clínica.

    Em doses baixas (25 a 100 mg ao dia), o efeito predominante é histaminérgico (H1) e alfa-1, com sedação significativa e pouca ação dopaminérgica. Funciona como anti-histamínico potente, próximo a uma difenidramina turbinada, e é exatamente isso que produz o efeito hipnótico que motiva a maior parte das prescrições off-label. Em doses intermediárias (200 a 400 mg ao dia), entra em cena o componente serotoninérgico, com ação clínica em depressão bipolar e como adjuvante em depressão maior refratária. Em doses altas (400 a 800 mg ao dia), a ocupação D2 chega ao patamar antipsicótico e o medicamento exerce seu papel original no tratamento de esquizofrenia e mania.

    A consequência prática é que o paciente que toma 25 mg de quetiapina para dormir não está fazendo "meio antipsicótico". Está, do ponto de vista funcional, tomando um anti-histamínico com perfil de risco metabólico e ortostático que nenhum anti-histamínico de balcão tem.

    A epidemia da dose baixa

    Nos últimos quinze anos, a quetiapina em dose baixa se espalhou no Brasil como substituta do clonazepam para pacientes com insônia, ansiedade e agitação. A justificativa frequente é que "não vicia" e que "tem perfil mais seguro que o benzodiazepínico". A primeira parte é tecnicamente verdadeira (quetiapina não produz dependência no sentido farmacológico clássico). A segunda parte é, no melhor dos casos, simplificação grosseira.

    O perfil metabólico da quetiapina, mesmo em dose baixa, inclui ganho de peso significativo (em torno de três a quatro quilos no primeiro ano em uso contínuo), aumento de risco de diabetes tipo 2, dislipidemia, e aumento da circunferência abdominal. Em pacientes com mais de sessenta e cinco anos, soma-se ortostase (queda de pressão ao levantar, com risco aumentado de quedas e fraturas), constipação, retenção urinária em homens com hiperplasia prostática, e rebaixamento cognitivo cumulativo. Em idosos com demência, a literatura é clara: antipsicóticos atípicos aumentam a mortalidade de causas cardiovasculares e infecciosas, com tarja preta da FDA desde 2005 e da Anvisa por extensão. Quetiapina não foi excluída dessa categoria.

    Boa parte dos idosos que recebem 25 a 50 mg de quetiapina à noite, indefinidamente, não se beneficia da medicação além do efeito hipnótico imediato. Em alguns casos, parte do quadro de "agitação noturna" que motivou a prescrição era manifestação de delirium não diagnosticado, ou de apneia do sono não tratada, ou de efeito colateral de outro medicamento da prescrição. A quetiapina sustenta o sintoma sem tocar na causa.

    Quando a quetiapina cumpre seu papel

    Em indicações formais, a quetiapina é uma das opções mais úteis da psiquiatria. No transtorno bipolar tipo I, em fase maníaca, doses entre 400 e 800 mg ao dia produzem resposta consistente com perfil de tolerabilidade aceitável para o cenário. Em depressão bipolar, é uma das poucas opções com aprovação formal e evidência robusta, geralmente em torno de 300 mg ao dia, na formulação XR. Como adjuvante em depressão maior refratária, doses de 150 a 300 mg ao dia entram em estratégia de potenciação. Em esquizofrenia, é alternativa ao olanzapina e à risperidona com perfil próprio de vantagens e limitações.

    Nessas indicações, o paciente recebe orientação sobre o monitoramento metabólico (peso, glicemia de jejum, perfil lipídico, circunferência abdominal a cada três a seis meses no primeiro ano), e a equação custo-benefício é favorável. O cenário é diferente do paciente que toma 25 mg para dormir há cinco anos sem reavaliação.

    O que pesa na escolha clínica

    Em transtorno bipolar com insônia importante, a quetiapina costuma ser escolha racional porque o efeito hipnótico vem de graça com o efeito estabilizador. Em paciente com ansiedade e insônia primárias, sem nenhum dos quadros que justificam antipsicótico, a quetiapina não deveria ser primeira nem segunda linha. Há opções com perfil de risco menor (TCC para insônia, melatonina em pacientes com fase de sono atrasada, doxepina em dose baixa com indicação formal para insônia, mirtazapina em pacientes com componente depressivo). Quando essas opções falham, e o paciente tem comorbidade que justifique antipsicótico atípico, a discussão muda.

    Pacientes com obesidade prévia, síndrome metabólica, diabetes tipo 2 ou dislipidemia mal controlada têm contraindicação relativa marcada à quetiapina. Em alguns desses casos, a olanzapina é ainda pior, mas isso não torna a quetiapina segura; significa apenas que o paciente precisa de outra família de opções.

    Descontinuação

    A quetiapina não produz dependência no sentido clássico, mas a interrupção abrupta de uso continuado, mesmo em dose baixa, costuma produzir insônia de rebote intensa, ansiedade, náusea e mal-estar geral. A retirada deve ser gradual, com redução de 25 a 50 mg a cada uma a duas semanas, e idealmente substituição por uma estratégia que aborde a queixa original, e não apenas mascare o sintoma de retirada.

    Se você toma quetiapina há mais de seis meses sem reavaliação periódica com psiquiatra, vale uma consulta. Boa parte dessas prescrições antigas, herdadas de fases pontuais que ninguém revisitou, hoje tem alternativa mais segura.

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