TOC: o transtorno por trás do que se chama de mania
· Por Dr. João Pedro CastroPsiquiatra · Psicogeriatra · CRM-MG 83920 · RQE 62148 / 66521
Quando alguém diz que tem TOC porque gosta de manter os livros alinhados na estante, está usando a palavra de uma forma que tem pouca relação com a clínica do transtorno. Apreço por organização não é TOC. Personalidade detalhista não é TOC. Mesmo um certo grau de ritualização cotidiana, com checagens repetidas em momentos de estresse, costuma estar dentro do que a vida adulta produz em qualquer pessoa. O que define o transtorno obsessivo-compulsivo é outra coisa, e geralmente é o que o paciente menos comenta.
A definição clínica gira em torno de duas peças que se sustentam. As obsessões são pensamentos, imagens ou impulsos intrusivos, recorrentes, indesejados e egodistônicos. Egodistônico significa que o conteúdo do pensamento é estranho ao que o paciente reconhece como sendo dele: a pessoa que tem obsessão de causar dano a um filho não quer fazer isso, sabe que não quer, e a estranheza do conteúdo aumenta a angústia em vez de diminuir. As compulsões são comportamentos repetidos ou atos mentais que o paciente realiza para reduzir a ansiedade gerada pela obsessão. Lavar as mãos, verificar a porta, rezar uma frase específica, contar até um número. O alívio é sempre parcial e sempre temporário, e por isso o ciclo se reinstala.
O que se vê e o que não se vê
A apresentação que circula na cultura é a contaminação seguida de lavagem ritual, ou a checagem repetida de gás e tranca. Existe esse perfil. Ele é uma fração do quadro. Em coortes clínicas, as obsessões mais frequentes não são as visíveis. Pensamentos intrusivos de causar dano (atropelar pedestre, machucar criança, agredir parceiro), pensamentos de conteúdo sexual indesejado envolvendo pessoas inadequadas, pensamentos blasfemos em pacientes religiosos, dúvidas patológicas sobre a própria identidade ou sobre orientação sexual. Esses pensamentos vêm acompanhados de horror, vergonha, e da convicção íntima de que ter o pensamento já é prova de que a pessoa é monstruosa.
Quando as compulsões são mentais (revisar a memória para ter certeza de que não fez algo, repetir frases internamente para neutralizar pensamento ruim, rezar em sequência específica), o quadro fica completamente invisível para quem está fora. Familiar próximo pode conviver dez anos com paciente em sofrimento severo sem perceber que algo está errado. O paciente, por sua vez, não fala porque tem certeza de que vai ser julgado. Esse silêncio é um dos motivos pelos quais o tempo médio entre início dos sintomas e diagnóstico ainda fica em torno de dez anos no Brasil.
Quando se tem TOC, a dúvida é o sintoma
Existe um padrão característico que ajuda na leitura clínica. O paciente com TOC opera sob dúvida insistente, o que a literatura francesa antiga chamava de folie du doute. Ele sabe que trancou a porta, e duvida. Volta. Verifica. Sai. Duvida de novo. Cinco minutos depois, volta. Não é falta de memória; o sistema cognitivo que produz a sensação de "está feito" não está produzindo essa sensação para tarefa nenhuma. A pessoa lava as mãos, sabe que lavou, e o sentimento de "limpo" não chega. Por isso lava de novo. Por isso lava de novo. O sintoma não é o ato; é o vácuo que o ato não preenche.
Essa é a chave para entender por que a tentativa de "convencer" o paciente racionalmente não funciona. Não falta argumento. Falta a sensação subjetiva de fechamento que costuma vir de graça em quem não tem o transtorno. O tratamento bem indicado opera nesse plano.
Neurobiologia
O TOC mostra alteração funcional consistente em circuitos cortico-estriato-tálamo-corticais (CSTC), com hiperatividade do córtex orbitofrontal, do giro do cíngulo anterior e do núcleo caudado. Esses circuitos têm função de detecção de erro e de avaliação de necessidade de ação corretiva. Quando hiperativos, geram a sensação contínua de que algo está errado e precisa ser feito, mesmo na ausência de erro real. Os mesmos circuitos respondem ao tratamento farmacológico e psicoterápico com normalização do padrão de ativação, o que se documenta em estudos de neuroimagem antes e depois.
Há também participação importante do sistema serotoninérgico. ISRS produzem resposta clínica em proporção significativa dos pacientes com TOC, geralmente em doses mais altas do que as usadas para depressão (40 a 80 mg de fluoxetina, 200 a 300 mg de sertralina, 200 a 300 mg de fluvoxamina), com tempo de resposta também mais longo (oito a doze semanas).
Diagnóstico diferencial
O TOC se confunde com outras condições. Transtorno de personalidade obsessivo-compulsiva (TPOC) compartilha o nome, mas é categoria diferente: trata-se de traços egossintônicos de perfeccionismo, rigidez, controle, em geral sem obsessões intrusivas e sem compulsões ritualizadas. O paciente com TPOC organiza a estante porque acredita que aquela é a forma certa, e fica satisfeito com o resultado. O paciente com TOC organiza a estante porque, se não organizar de uma maneira específica, alguma coisa ruim pode acontecer, e em geral nem ele consegue explicar por quê.
Espectro do TOC inclui também o transtorno dismórfico corporal (preocupação obsessiva com defeito imaginário ou exagerado da própria aparência), o transtorno de acumulação (hoarding), a tricotilomania (arrancar os cabelos), a dermatotilexomania (escoriações da pele), e algumas apresentações de transtorno alimentar. As fronteiras entre esses quadros e o TOC clássico foram redefinidas no DSM-5, que criou uma categoria própria para o conjunto.
Tratamento
O tratamento de primeira linha combina terapia cognitivo-comportamental com técnica específica de exposição e prevenção de resposta (EPR) e ISRS em dose alta. A EPR é o componente mais bem estudado da terapia para TOC: o paciente é gradualmente exposto a situações que disparam a obsessão (tocar uma maçaneta, deixar a porta sem checar, ter o pensamento intrusivo) sem realizar a compulsão correspondente. Com a repetição, o circuito de ansiedade se habitua, e a obsessão perde a força.
Em pacientes que não respondem, a estratégia inclui troca de ISRS, aumento de dose, associação com clomipramina (antidepressivo tricíclico com indicação clássica em TOC), potencialização com antipsicótico atípico em dose baixa (risperidona, aripiprazol). Em casos refratários graves, intervenções como estimulação magnética transcraniana, e em quadros muito específicos, neurocirurgia funcional, entram como opções de último recurso.
A taxa de resposta combinada (TCC com EPR mais ISRS em dose adequada) chega a 60-70% em coortes clínicas. Resposta completa, com retomada do funcionamento em todos os domínios da vida, é possível e relativamente comum em quadros tratados precocemente.
Quando vale procurar avaliação
Quando pensamentos intrusivos repetidos consomem horas do seu dia, quando rituais (visíveis ou mentais) começam a comprometer trabalho, estudo ou relacionamentos, quando você convive com a sensação de que algo está sempre prestes a dar errado e não consegue desligar essa sensação, vale uma avaliação psiquiátrica. O diagnóstico bem feito separa o que é TOC do que é traço de personalidade, e o tratamento, quando indicado, devolve em meses uma quantidade de tempo e de atenção que vinha sendo capturada por décadas.
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