Álcool e outras substâncias: a automedicação de transtornos mentais que ninguém diagnosticou
· Por Dr. João Pedro CastroPsiquiatra · Psicogeriatra · CRM-MG 83920 · RQE 62148 / 66521
A coexistência entre transtorno de uso de substâncias e transtorno mental é a regra. Em torno de 50 a 70% dos pacientes em tratamento por dependência têm ou tiveram diagnóstico psiquiátrico concomitante. A pergunta clínica que importa é: quem chegou primeiro?
A história costuma ser parecida. A pessoa convive com depressão, ansiedade ou TDAH sem diagnóstico. A substância oferece alívio sintomático rápido. Álcool baixa a ansiedade. Estimulante melhora foco e energia. Sedativo acalma a insônia ansiosa. Com o tempo, o uso aumenta em frequência e quantidade. Vem tolerância, vem dependência, vem o próprio quadro de abuso somando-se ao quadro original.
TDAH não tratado é um dos casos mais frequentes. Adolescente e adulto jovem com dificuldade de concentração descobre que estimulante (prescrito ou não) melhora rendimento cognitivo. Sem avaliação, vai parar em cafeína em dose muito alta, energético, e em alguns casos cocaína ou metanfetamina. O cérebro responde ao que tem disponível, e o paciente acha que aquilo é "a personalidade dele".
Depressão com insônia leva à automedicação com álcool. A sedação inicial parece resolver, mas álcool fragmenta o sono profundo, piora o quadro depressivo, e amarra a pessoa numa dependência crescente. Ansiedade generalizada empurra para qualquer coisa que acalme. Benzodiazepínico obtido sem prescrição costuma ser o caminho, e o alívio rápido vira dependência rápida.
A sequência muda o plano de tratamento. Quando o transtorno mental antecedeu o uso, ele é considerado primário e o consumo é secundário, uma consequência. Quando o uso é o ponto de partida (experimentação recreativa que evolui para dependência), os sintomas mentais que vêm depois podem ser efeito do próprio abuso. Cada cenário pede estratégia diferente.
Em paciente com transtorno mental primário, a medicação psiquiátrica adequada costuma reduzir a motivação para usar substâncias. Quem teve a ansiedade controlada com ISRS eficaz tem muito menos necessidade de automedicar com álcool. Tratar a raiz desinfla o sintoma que alimentava o consumo.
Ao mesmo tempo, o uso crônico danifica o cérebro de forma que às vezes é reversível com abstinência e às vezes não é. Separar sintoma de transtorno mental primário de sintoma causado pela substância exige avaliação cuidadosa, com frequência um período de abstinência supervisionado para que o quadro residual fique visível.
O tratamento robusto trabalha as duas frentes em paralelo. Desintoxicação segura quando necessária. Diagnóstico e tratamento da psicopatologia de base. Terapias que abordam dependência e psicopatologia juntas. Programas de prevenção de recaída que respeitem tanto o gatilho psicológico quanto o neurobiológico.
Se você ou alguém próximo nota que o uso de substâncias aumentou em fases estressantes, ou que existe um alívio nítido associado (a ansiedade cede com álcool, o foco aparece com estimulante), provavelmente existe um transtorno mental por baixo que ninguém viu. Avaliar isso separadamente do problema do consumo pode ser o que destrava o tratamento.
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